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A diversidade no Yoga

por Thiago Goulart

Ser consciente

por Mirra Alfassa

Textos, artigos e ensaios sobre Yoga

 

Breve diálogo de A Mãe (Mirra Alfassa), com seus discípulos em Pondicherry, Índia, 1929.
"Que deve a pessoa fazer para preparar-se para o Yoga?

A Mãe:
- Ser consciente, primeiro que tudo. Somos conscientes apenas de uma insignificante porção de nosso ser, pois da maior parte somos inconscientes. É esta inconsciência que nos mantém sujeitos à nossa natureza irregenerada e impede a sua mudança e transformação. É através da inconsciência que as forças não divinas entram em nós e nos fazem seus escravos. Você deve ser consciente de si mesmo, você deve despertar para sua natureza e seus movimentos, você deve saber como e por que faz ou sente as coisas ou pensa nelas; você deve entender seus motivos e impulsos, as forças escondidas ou aparentes que o movem; na verdade, você deve, por assim dizer, desmontar em pequenos pedaços o mecanismo inteiro de seu ser. Somente quando você se torna consciente é que você pode distinguir e peneirar as coisas, você pode ver quais as forças que o puxam para baixo e quais as que te ajudam.";~ç.

      
     Acredito que a grande diversidade que vemos na Índia, o caldeirão borbulhante que é este país, com suas diferentes e várias formas de cultos e caminhos espirituais (sadhus, ascetas renunciantes, brâmanes, tântricos, shaktas, vishnuístas, shaivas, o budismo entre muitos outros), enfim, tantas vertentes espirituais que dominaram e são praticadas no mundo atual, são como as divindades cultuadas, várias facetas do mesmo princípio divino: Îshvara, Brâhma, Shiva. Nada mais natural que esta diversidade se expresse também nas diferentes formas de Yoga que se apresentam hoje em dia, todas são apenas alegorias para um objetivo em comum.
Claro que nem tudo que reluz e reivindica seu lugar possa ser considerado ouro, ou seja, um caminho autêntico: o mundo está repleto de espertalhões que mais obscurecem do que clareiam; uma boa dose de esclarecimento e discernimento é necessária para poder conhecer um caminho autêntico, muitas vezes a "sorte" ou predisposição kármica a este nos apresenta.
Dentro deste mundo repleto de intolerância, discriminação e preconceitos - todos fatores que tem a mesma característica em comum, a limitação - apenas sei que é arriscado e potencialmente limitante se considerar o melhor, o mais autêntico, o mais correto, o mais sábio, o porta-voz escolhido por deus ou alá ou o supremo em seus diferentes nomes inventados pelos humanos; todos estamos neste plano por sermos iguais, com caminhos diferentes e pontos de vista que nos fazem evoluir ou não. Esta minha opinião de que é arriscado e potencialmente limitante ainda é bastante limitante, pois mesmo os que criticam e limitam tem o seu papel neste plano, ou seja: tudo está perfeitamente agora, nada há a acrescentar ou tirar. A realidade que se apresenta apenas é: imperfeitamente perfeita.
Faça a sua prática, respeite a dos outros.
Se sua prática te traz mais esclarecimento e discernimento, acompanhado de respeito á sua vida e a dos outros, com celebração extática desta, além de outros fatores que tornam esta realidade menos opressiva e limitada/limitante, saiba que está no caminho certo
.




 

Kalayanamitra é um termo sânscrito que define os bons amigos.
Conhecemos pessoas em nossa existência, algumas das quais, sem sabermos a razão, começam a fazer parte de nossa vida, e agregam grande valor, beleza e auspiciosidade a ela.
Kalayanamitra é uma conexão energética poderosa, como pessoas de uma mesma família, digamos, uma ligação maior, cósmica. Um amigo na condição de Kalayanamitra, quando o encontramos, é como um reencontro, alguém que têm-se a impressão de conhecer há muito tempo.
Kalayanamitra não é o tipo de amizade forçada a acontecer, muito menos uma relação forjada por condições, como gentilezas cínicas ou pretensiosas. Não há interesse egoísta por trás de Kalayanamitra, não existem vampirismos energéticos, comuns hoje em dia nas ditas “amizades”, baseadas em sorrisos falsos e gentilezas superficiais ou materiais, em que um precisa se recarregar através do outro dito “amigo”. Tome como exemplo pessoas que apenas falam, não escutam, não abrem espaço para a troca, o tipo de pessoa que precisa constantemente de autoafirmação.
“Deixai que os fatos sejam fatos, sem que sejam forjados para acontecer.” Chico Science.
Essa amizade é uma conexão sem descrições, que faz aflorar e sublinha nossa essência, ou seja, nosso ser real. Conduz-nos ao nosso melhor, pois há ressonância de intenções. É uma troca harmoniosa, em que cada um inspira ao outro no despertar de belas energias, Shri, nutrindo cada indivíduo com mais alinhamento, o que auxilia na execução de nosso Dharma, nosso propósito maior nesta existência. 
Quando encontramos nosso caminho, por exemplo, através de uma disciplina que nos desenvolva harmoniosamente, como o Yoga, nos conectamos a uma fonte cósmica de energia que nos direciona naturalmente a estes relacionamentos simples e puros.  E quando nossas intenções são livres de malícia, sem serem movidas pelo ego, facilitamos estes encontros.
Kalayanamitra, bons amigos que se encontram no caminho em direção ao despertar espiritual, apenas é.
Kalayanamitra é um guia que conduz estes bons amigos ao caminho justo, em direção á iluminação. Namastê!

 

Kalayanamitra

por Thiago Goulart​

O Saṁsara é o próprio pensamento.
Com esforço, é preciso purificá-lo.
Aquilo que o homem pensa é aquilo

em que ele se transforma.
Este é o eterno mistério.
Maitrī Upaniṣad

 

Certa vez uma amiga estudiosa da cultura indiana e ativista da igualdade de direitos para mulheres me deu sua opinião sobre o Tantra: no ponto de vista dela, uma prática feita por homens para estar mais próximos de mulheres em um certo tipo de contexto meramente sexualizado. Nada mais longe da verdade sobre o Tantra! Como ocidentais egóicos que queremos ter o domínio do conhecimento, podemos passar por aquele momento em que colocamos precipitadamente o lustroso distintivo de sabe-tudo, atropelando informações valiosas e com fundamento verídico, e em se tratando de Tantra, dados que até pouco tempo atrás chegavam ás nossas mãos em migalhas. Á medida que estudiosos e praticantes sérios pesquisam mais e mais fontes sérias, a verdade sobre tais tradições nos revelam a grandiosidade, beleza e complexidade destes conhecimentos milenares que tem como propósito mais elevado a libertação do ser humano de seus condicionamentos limitantes e de sua ignorância quanto a sua essência divina, estes a base dos sofrimentos que afligem grande parte da humanidade.

 

A tradução abaixo consta no arquivo de um tântrico dos nossos dias, Daniel Odier, um iniciado na escola Pratyabhijñâ pela sua guru a yoginî Laita Devî, e revela o importante papel da mulher dentro das tradições tântricas, de mesmo teor e importância que os homens, tanto no papel de guru como no de iniciadoras. Apenas mais uma prova dentre tantas que, se procuradas, são testemunhos da importância proativa da mulher dentro do Tantra, longe de qualquer submissão caricata que possa ser erroneamente adaptada. Boa leitura. Thiago Goulart

 

A jóia dos ensinamentos da yoginî espontaneamente liberta

 

Traduzido do francês por: Thiago Goulart & Fanny Glem

 

“Sahajayoginîcintâ foi uma Yoginî Sahajîya do século VIII cujos ensinamentos marcam um dos momentos mais fortes do Tantra Oddyâna, país vizinho da Caxemira do qual são originários muitos Siddhas, dentre os quais Padmasambhava que levou esses ensinamentos para o Tibete. Sahajayoginîcintâ era a discípula de outra famosa yoginî, Lakshmînkarâ, princesa do reino. Sahajayoginîcintâ tinha muitos discípulos, dentre estes Ghanthapa que estabeleceu essa tradição em Orissa.”

 

 

No supremo reino de Oddyâna,

 

Depois de uma assembleia de yoginîs cintilantes,

 

Sahajayoginîcintâ entrou em concentração cósmica infinita

 

Que confere imediatamente a energia vibrante da realidade absoluta

 

Resultante da realização da verdade suprema.

 

Ela se manifesta pela expressão da realidade do corpo,

 

Fluxo glorioso de mel, sabedoria que, de seu rosto

 

Semelhante ao lótus flui sem nenhuma hesitação:

 

Para realizar o Eu,

 

Espontâneo, puro e não dual,

 

Compreendamos que ele se manifesta como homem e mulher

 

E que seu próprio Eu, criativo por natureza,

 

Manifesta a realidade através da expressão do corpo.

 

Espontaneamente, surge uma mulher encantadora,

 

O despertar toma a forma de um corpo,

 

E o Buda, apaixonado e lúdico,

 

Sente emergir desejo e plenitude.

 

Então, deixando fluir murmúrios,

 

O Eu, tal um dançarino em um sonho,

 

Deleita-se com o jogo dos cinco sentidos.

 

Por um discurso sincero e gentil,

 

Ele faz sua amada deslizar em seu coração,

 

Cobre-a com um sutil perfume,

 

E a saboreia, bebendo sua fragrância,

 

Ele vive esta união como semelhante

 

Ao contato de cem jarras de néctar

 

E ambos abraçados

 

Desfrutam de todas as nuances

 

Desta benção.

 

A yoginî, o olhar cheio de desejo,

 

Pronuncia palavras revestidas de mel,

 

Ela se une ao dançarino movendo seu lótus

 

Experimentando uma onda de prazer.

 

O Eu em seu íntimo

 

Fica unido ao espírito,

 

E degusta o sabor único

 

De diferentes beijos.

 

Entregando-se ao fluxo apaixonado,

 

Mordendo e arranhando,

 

Fazendo jorrar um intenso prazer,

 

Lacerando seus corpos com ardor,

 

Eles põem fim á ilusão.

 

Nesta dissolução da dualidade,

 

Pelo sabor do desejo,

 

Perdendo a experiência da identidade,

 

Os amantes provam

 

Um prazer indescritível e nunca sequer alcançado.

 

Cada um nessa correnteza apaixonada,

 

Nascidos do mesmo espírito,

 

Esquecem toda dualidade

 

Conscientes deste prazer único.

 

No farfalhar apaixonado,

 

Sem distrações,

 

Eles atingem a abundância

 

Do prazer insuperável

 

Elevado ao seu cume.

 

Os prazeres humanos

 

Limitados pelo apego,

 

Quando são tranformados,

 

Tornam-se êxtase espiritual,

 

A essência da realização do Ser,

 

Além da forma e do pensamento conceitual.

 

Pois o espírito guiado por uma respiração sutil

 

Busca sua essência primordial e encontra

 

Esta benção suprema.

 

Ele não conhecerá mais a distração,

 

E descansando nesta realidade radiante,

 

Tocará a sabedoria essencial.

 

Estado sagrado

 

Estabilizado no prazer,

 

Deleite supremo

 

Que traz aos seres

 

Êxtase e alegria infinita.

 

Como os espíritos imaturos

 

Seriam despertados?

 

Aqueles cujo esplendor original

 

É obscurecido pelos brotos da ação?

 

Toda ação

 

Jorrando espontaneamente

 

Do espírito desperto,

 

É pura em sua essência

 

E seus movimentos sagrados.

 

Toda palavra é sagrada

 

Os atos são cheios de graça,

 

Heróicos e poderosos.

 

Com esse amor tranquilo,

 

A paixão, a raiva, o orgulho,

 

Ganância e inveja,

 

E todas as coisas sem exceção,

 

Surgem como perfeições

 

E o Eu se estabelece na sabedoria esclarecedora.

 

Aquele que é hábil

 

Utiliza o peso desse conhecimento

 

Na pureza inerente

 

E possui a grande realização

 

Da suprema “budeidade”

 

Na palma da sua mão.

 

Fonte: http://www.danielodier.com/french/frliberee.php

A jóia dos ensinamentos da yoginî espontaneamente liberta